O Arauto

Photobucket

sexta-feira, abril 18, 2008

Se foi um mal que veio por bem, o bem demora a chegar

O termo da existência de Jonas Savimbi, permitam-me ser politicamente (in) correcto (porque a História assim exige e as mais recentes evidências quotidianas dos factos assim aconselham), foi um mal que veio para bem. Um mal (claro que não se deseja a morte de ninguém nem a ninguém!) que veio para bem na medida em que deixou a nu a manifesta e inapta capacidade do MPLA para lidar com valores como a democracia, tolerância política, liberdade e cidadania.

O desaparecimento do líder e fundador da UNITA foi um mal que veio para bem porque mostrou que quem governa está impreparado para dirigir uma Angola sem guerra.

A morte do velho guerrilheiro foi um mal que veio para bem porque deixou o MPLA numa posição bastante incomoda em que dá a entender claramente que o Governo está de tanga (e para um Governo de tanga, uma tanga de Governo!).

A aniquilação de Jonas Savimbi, o homem que durante muitos anos deu à volta politicamente ao mundo inteiro, mostrou que o MPLA não tem nem nunca teve uma agenda social para o período do pós-guerra.

Passados seis anos desde que a UNITA foi capitulada e o seu líder morto, ainda não é possível dizer alto e bom som “olhe, isto (Angola) aqui está muito bom; isto aqui está bom demais”.

As matreirices políticas de Jonas Savimbi e os actos de sabotagem, de todo o género, por parte das forças militares da UNITA deixaram de ser um pretexto para que não se dê, pelo menos isso, água, pão, habitação, educação e saúde aos cidadãos-eleitores e contribuintes angolanos.

Até quando?


*Texto inicialmente publicado no NL

Etiquetas: , , ,

quinta-feira, março 08, 2007

A razão da força contra a força da razão

Um ordinário salteador e filho de pai incógnito que, à pala da farda da Polícia Nacional que enverga e da arma de fogo que transporta no ombro a pretexto de garantir a segurança e tranquilidade públicas dos angolanos, pontapeou, a 8 de Agosto do ano passado em Luanda, uma mulher grávida de oito meses como se de uma cadela tinhosa e sem dono se tratasse.
Como se pode entender, afinal, que, nesta terra explorada (por um pequeno grupo bem identificado), nesta opressão (não) declarada, isso ainda aconteça? Tal dever-se-á, digo eu, ao autismo esquizofrénico e ao desprezo suicida pelas aspirações e necessidades primárias dos angolanos por parte do chefe do Governo, de seu nome Jonas Savimbi, que hoje, dia 22 de Fevereiro, completa mais um aniversário do seu consulado, cuja lonjura há muito começou a cansar o povo.
Uma cidadã de nome Vitória, nascida certamente na Angola dos pequeninos, filha de um deus menor e para quem o Sol jamais brilhou enquanto em vida, morreu recentemente às portas de um Centro de Saúde do Sambizanga (Luanda) por falta de três mil kwanzas (cerca de cinco euros).
Como se pode entender, afinal, que, nesta terra explorada (por um pequeno grupo bem identificado), nesta opressão (não) declarada, isso ainda aconteça? Tal dever-se-á, digo eu, ao autismo esquizofrénico e ao desprezo suicida pelas aspirações e necessidades primárias dos angolanos por parte do chefe do Governo, de seu nome Jonas Savimbi, que hoje, dia 22 de Fevereiro, completa mais um aniversário do seu consulado, cuja lonjura há muito começou a cansar o povo.
De acordo com o relatório da autoria do activista de Direitos Humanos Rafael Marques, com o título “Operação Kissonde: Os diamantes da Humilhação e da Miséria””, seguranças privados ao serviço de empresas de generais do exército angolano no Cuango – Lunda-Norte, tais como “Teleservice” “Alfa-5” e a “K&P Mineira”, revistaram – com as varetas das suas armas – o ânus de Francisco Paulo Ita, 29 anos, à procura de diamantes, enquanto que um outro cidadão, cujo nome não está plasmado no documento, foi, sob ameaça de uma arma de fogo apontada à cabeça, obrigado a sodomizar o sogro.
Como se pode entender, afinal, que, nesta terra explorada (por um pequeno grupo bem identificado), nesta opressão (não) declarada, isso ainda aconteça? Tal dever-se-á, digo eu, ao autismo esquizofrénico e ao desprezo suicida pelas aspirações e necessidades primárias dos angolanos por parte do chefe do Governo, de seu nome Jonas Savimbi, que hoje, dia 22 de Fevereiro, completa mais um aniversário do seu consulado, cuja lonjura há muito começou a cansar o povo.

Etiquetas: , ,

Morte de Savimbi em nada (pelo contrário) ajudou o pobre Povo angolano

A morte de Jonas Savimbi, faz hoje cinco anos, marcou o final da “Guerra Esquecida”, como era conhecida no Ocidente, que matou o futuro de três gerações. Foi, para uns poucos, pretexto para abrir garrafas de champanhe. Porém, cedo, mas muito cedo mesmo, deram conta que a morte do fundador do Galo Negro constitui(u) “má notícia” para todos aqueles, sejam eles do MPLA ou ainda da UNITA, mesmo que da Renovada, por ter aberto caminho para o impedimento do enriquecimento fácil à sombra da guerra.


Com a irreverência e frontalidade características da sua juventude e a tímida coragem permitida pela mão circunstancialmente aberta do Sistema que senhoria Angola, o líder parlamentar do Partido de Renovação Social (PRS) afirmou, no dia 19 de Fevereiro de 2005, em declarações à agência Lusa, que “a morte de Jonas Savimbi e o consequente fim da guerra não permitiram melhorar as condições de vida dos angolanos”.



Lindo Bernardo Tito, que em 1991 deixou os microfones do grupo Rádio Nacional de Angola (RNA) na emissora provincial da Lunda Norte para abraçar a terceira maior força política nacional de corpo e alma, deverá saber que as suas palavras, apesar do tempo levado pelo tempo do nosso tempo, continuam válidas hoje e, quem sabe, continuarão a ter o mesmo valor amanhã caso a fina flor preconceituosa do poder angolano, à semelhança do tristemente célebre regime português de António de Oliveira Salazar, continuar a pautar pelo autismo esquizofrénico e desprezo suicida pelas aspirações e necessidades primárias do povo como tem acontecido de 1975 à presente data.



As palavras do tribuno à Assembleia Nacional pelo PRS, relativas à morte de Jonas Savimbi, continuarão certamente a ser válidas por muito mais tempo (cinco, dez anos ou quem sabe mais) caso se continue a pensar nos corredores do poder (absoluto) que no País existem cidadãos de primeira e de segunda e que a pretensa democracia das Ingombotas (Luanda) é extensiva ao resto de Angola.



A morte de Jonas Savimbi permitiu, quinze dias depois, o alcance da paz mas não operou mudanças dignas de registo na vida social e económica do cidadão comum, o que quer dizer que a “puta” da vida continua a mesma. Ou seja, de mal a pior. Dito de outro modo: se Jonas Savimbi, morto aos 67 anos, era uma mosca incómoda, então quem o combateu é uma “merda” que continua a mesma… e cada vez mais mal cheirosa.



Jonas Savimbi morreu, mas milhares de angolanos continuam, no alvorecer de cada ano lectivo, a não ter acesso ao Ensino de Base, Médio e Superior. Os angolanos, pior do que antes de 22 de Fevereiro de 2002, continuam a morrer por falta de dinheiro para pagarem nos hospitais. Agentes da Polícia Nacional inverteram o seu papel. Ou melhor, ao invés de protegerem os cidadãos combatem-nos.


A crítica ao Governo continua a ser entendida como uma afronta. Filiar-se num partido que não seja o MPLA é sinónimo de proscrição da Função Pública e do desprezo da sociedade medieval que, infelizmente, ainda existe em Angola. Enfim, uma imensidão de exemplos que poderiam ilustrar que a morte de Jonas Savimbi “rebentou” como chapéu de chuva da má vontade política do governo no que respeita aos cumprimentos das suas responsabilidades.



Jonas Malheiro Savimbi (1934 – 2002)



Jonas Malheiro Savimbi nasceu em Munhango, província angolana do Bié, em 1934. Passou a infância no sul de Angola entre o povo Ovimbundu, o maior grupo étnico do país, e ao contrário da maioria das crianças angolanas frequentou a escola e era considerado um aluno «inteligente e aplicado».


Filho de um chefe de estação dos Caminhos de Ferro de Benguela e pastor evangélico, Loth Malheiro Savimbi, e de Helena Mbundu Sakatu. Estudou no Colégio Marista do Bié, passou pelo Liceu do Lubango e veio terminar os seus estudos secundários no Liceu Paços Manuel, em Lisboa e aqui estudou durante dois anos na Faculdade de Medicina.


Enquanto esteve em Portugal foi detido três vezes pela polícia secreta portuguesa (PIDE). Savimbi fugiu para a Suíça em 1960 e formou-se em Ciências Políticas e Jurídicas pela Universidade de Lausanne, em 1965. O líder da UNITA juntou-se ao movimento contra o colonialismo português e na Europa, Savimbi conheceu membros dos dois principais movimentos políticos angolanos: o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e a União dos Povos de Angola (UPA).



Em 1961 filiou-se na UPA e rapidamente se tornou secretário-geral do Partido. Ajudou depois a criar a Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA), um novo movimento político. À FNLA juntaram-se outros pequenos movimentos e foi criado o GRAE (Governo da República de Angola no Exílio) reconhecido pela OUA como representante do Povo Angolano. Savimbi é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros desse governo no exílio.



No final do mesmo ano a FNLA lançou uma ofensiva contra o poder colonial português e as tensões entre os movimentos nacionalistas aumentaram. Savimbi deixou a FNLA em 1964 e viajou para a Europa de Leste, nomeadamente para a URSS. Um ano mais tarde recebeu treino militar na China, acompanhado de outros onze companheiros que com ele partilham a visão de que a luta contra o colonialismo português teria de ser feita de dentro de Angola, junto das populações que sofriam.


Regressa a Angola em 1966 fundando a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que logo começou os ataques armados contra a potência colonial. Em 1967 foi detido na Zâmbia quando procurava apoios para a luta no interior do País. Libertado viaja para o Cairo e regressa de novo ao interior de Angola e continua a actividade clandestina contra o colonialismo português.



Os movimentos nacionalistas começaram a discutir o futuro político do país e a guerra continuou até 1974, altura em que foi derrubada a ditadura em Portugal e instaurada a democracia. O império colonial português começou a desintegrar-se e Angola tornou-se independente a 11 de Novembro de 1975. Ainda em 1974 e depois de assinar o cessar-fogo com Portugal é Savimbi que convence os outros dois movimentos a assinarem o cessar fogo.


É ainda a seu convite que se realizam durante este processo três cimeiras entre os Movimentos. Primeiro em Campala, Uganda onde os três concertam uma posição para as conversações com Portugal em Alvor, depois em Mombaça no Quénia e em Nakuru também no Quénia na tentativa de salvar o processo de Paz então em curso. Mas as conversações de Paz não resultaram porquanto o MPLA tinha decidido com o apoio da URSS e de alguns sectores portugueses assaltar o poder.



Assim levou a efeito um ataque militar contra a FNLA e a UNITA. Depois da independência, as tensões entre os três movimentos nacionalistas resultaram num conflito armado. O MPLA recebeu armas da URSS e o apoio de tropas cubanas, enquanto a UNITA recebeu ajuda financeira e militar da África do Sul e de outros países ocidentais como os Estados Unidos.



No período que medeia 1974 e 1990 Savimbi tenta sem êxito entrar em conversações de Paz com o MPLA. Em simultâneo vai alargando no terreno a influência militar da UNITA, e construindo por todo o mundo a imagem de um Movimento que lutava contra a ditadura comunista então existente em Angola.



Finalmente em 1990 pressionado pelas acontecimentos mundiais e pela derrota militar no terreno angolano o MPLA aceita negociar a Paz e introduzir o multipartidarismo e as eleições em Angola. Seguem-se eleições em nos finais de Setembro 1992, cujos os resultados artificiosos a UNITA aceita em 14 de Outubro. Mas apesar disso o MPLA leva a cabo um golpe de estado, assassinando os principais dirigentes da UNITA em Luanda, e massacrando mais de vinte mil cidadãos na capital.


A guerra civil recomeça e arrasta-se até 2001. Várias tentativas são feitas para que ela acabe. Em Dezembro de 2001 a UNITA aceita por intermédio da ONU o restabelecimento da Paz e o cessar-fogo. Mas antes que tal seja feito o MPLA ataca a zona onde Jonas Malheiro Savimbi estava e este é morto em combate a 22 de Fevereiro de 2002.


Publicado inicialmente aqui

Etiquetas: , , ,

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A paz jamais se impõe com cadáveres

Já o disse em várias ocasiões e em ocasiões várias e hoje, tal como ontem, volto a dizê-lo consciente de que, só por isso e nada mais do que isso, a espada do poder vai continuar a pairar sobre a minha cabeça e que a depravada discriminação (de todo e mais algum tipo) de que tenho sido alvo poderá vir a ser maior nos próximos tempos ou, quem sabe, nos tempos próximos.

Tenho dito (sei que choca alguns mas quase todos os militantes do MPLA), por minha conta e risco, que a paz, um regulativo intencional nunca acabado, jamais se impõe com cadáveres como se tentou fazer com o de Jonas Savimbi no dia 22 de Fevereiro de 2002 nas matas do Leste de Angola.

A tentativa de se impor a paz com a amostra pública e humilhante do cadáver do líder guerrilheiro não resultou e, contra todas as expectativas, Angola, passados cinco anos, continua à espera da concórdia que é, convenhamos, um efeito da Ordem Jurídica e também um objectivo que nunca (foi) é totalmente acabado.

Tenho dito (sei que aborrece alguns mas quase todos os militantes da UNITA), o que julgo ser uma verdade verdadeira, que a morte de Jonas Savimbi foi um mal que veio para o bem de Angola e dos angolanos. E quem disso duvidar, seja ele da UNITA, do MPLA ou de que partido político for, que se levante e, se os tiver no lugar, atire a primeira pedra!

A morte de Jonas Savimbi, que se transformou na sentença de morte política de José Eduardo dos Santos, foi um mal que veio para bem porque o homem (o líder da UNITA) deixou de ser o bode expiatório primacial do MPLA.

Ao homem e à organização que liderava era atribuída a miséria, a falta da gestão transparente da Coisa Pública, a corrupção, o despotismo, a ausência da democracia e a falta de condições para construção de um Estado de Direito Democrático.

Hoje, para espanto de uns, credulidade de outros e por mais incrível que pareça para todo o mundo, continua-se a não se dar provimento às sobreditas instituições.

Será por culpa de Jonas Savimbi e da UNITA? É (im)possível!

É que a brincar a brincar, e sem dar por isso, o partido no poder está a fornecer a corda com a qual o povo, qualquer dia, o irá “enforcar”… nas próximas eleições.
Publicado inicialmente aqui

Etiquetas: , ,