O Arauto

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terça-feira, janeiro 23, 2007

Chivukuvuku em altos exercícios de pirotecnia política

De nada adianta culpar a imprensa. Abel Chivukuvuku tem a obrigação de saber que sempre que ele se entregar a exercícios de pirotecnia política como aquele em que incorreu quando foi contar a Kwata Kanawa, seu adversário político, a novidade da sua candidatura à liderança da Unita, estará sempre sujeito a atear um incêndio de sérias proporções nos seus próprios aposentos. E, claro, a sair chamuscado. No afã de refutar, com a legitimidade que lhe assiste, as acusações segundo as quais terá pedido ao Mpla apoios financeiros e políticos para a sua campanha à presidência da Unita, Abel Chivukuvuku acabou por cometer alguns tropeços que não ficam bem num político que pretende chegar um dia à mais alta magistratura do país.
Num episódio que, no fundo, se converteu numa espécie de teste de fogo à sua personalidade política, o deputado da Unita evidenciou que ainda lhe falta aquela serenidade que caracteriza os grandes políticos em momentos cruciais e de aperto. O enorme escarcéu que Chivukuvuku fez mostrou exactamente o desacerto com que agiria em momentos de tensão e pressão. É como aquele piloto que mal vê uma luz vermelha acender no painel de instrumentos, mesmo tendo condições para controlar a situação, perde a cabeça e precipita a aeronave e os passageiros contra o solo.
Quando o Semanário Angolense publicou a polémica matéria, teve o cuidado de chamar a atenção para a possibilidade de se estar em presença de uma cabala contra o dirigente da Unita. Uma cabala com duas pontas: uma para esvaziar o efeito da entrevista com a qual anunciou a candidatura à liderança do seu partido; outra ponta para estender-lhe uma casca de banana visando explorar eventuais reacções negativas da sua parte.
Este elemento, pelos vistos, escapou à análise de Chivukuvuku que fez exactamente o que os seus adversários encobertos desejavam. Ao jogar-se, cego de fúria, contra o jornal, vendo fantasmas onde eles não existem, ele foi de uma intolerância inaudita. «Tudo o que vai acontecer agora, nos marcos da modernidade, é o Semanário Angolense tratar este assunto com os tribunais, os advogados, a Dnic», foi a solução que Chivukuvuku apressou-se a arranjar.
Não parou um momento para reflectir, com serenidade, que a sua atitude podia ser lida como um sinal de que tendo poder os jornalistas são para serem abatidos. Ele, que muitas vezes criticou a leviandade com que os dirigentes do Mpla recorrem aos tribunais para dirimir conflitos com a imprensa, fez uso da mesma arma logo à primeira contrariedade séria que tem com um jornal, que se limitou a estampar as acusações que os seus adversários políticos lhe fazem.
Fazer recurso ao tribunal é a «maturação política» de que Chivukuvuku agora se ufana. Na realidade, não deixa de ser um avanço, um sinal de urbanidade que por certo não teria nas circunstâncias do passado, quando a Unita exibia poderio e vitalidade militar sob a tutela e comando de Jonas Savimbi.
Apesar de tudo, Chivukuvuku mostra-se ambivalente e a raciocinar com os arquétipos dos tempos da Jamba, quando vê «mandantes do regime» por detrás do Semanário Angolense. Este é um pensamento que caracterizou a escola propagandística da Jamba, onde os jornalistas tinham dono e não se admitia que pudessem pensar pela própria cabeça.
O Semanário Angolense sabe, felizmente, que muitos outros dirigentes da Unita conseguiram fazer essa ruptura de pensamento com o passado. Quando este jornal publicou a conhecida matéria «Os nossos milionários», Lukamba Gato qualificou-a como um «acto de coragem física e não apenas jornalística».
A independência deste jornal foi reconhecida pelo presidente da Unita, Isaías Samakuva, durante a visita que ele fez às suas instalações, no ano passado. O economista e deputado Fernando Heitor, colega de bancada de Chivukuvuku, nem sempre concorda com os pontos de vista do SA, mas isso não o impede de frequentes vezes elogiar o trabalho do jornal. Foi o que fez também o antigo médico de Jonas Savimbi, Carlos Morgado, em carta que nos fez chegar recentemente.


Se todos estes dirigentes da Unita nunca puseram em causa a independência e idoneidade do Semanário Angolense, é muito estranho que só Abel Chivukuvuku pense o contrário e atribua aos jornalistas desta casa «instintos primários». Ou mesmo quando os trata, pejorativamente, por «jovens do Semanário Angolense».



Este é um raciocínio inadequado para quem tenha pretensões de liderar um país. Mesmo do ponto de vista estratégico não é avisado que um político se atire, encarniçadamente, contra um jornal, como se o mundo tivesse acabado depois de um artigo menos simpático. O experiente político francês Eduard Balladur, autor do livro «Maquiavel em Democracia», aconselha os seus colegas de «métier» a nunca terem temor dos jornalistas, mas também a nunca subestimá-los.


Provavelmente, até que Chivukuvuku enfie na cabeça que os jornalistas não são nenhuns papões, mas que também não são umas criancinhas inofensivas, estará sujeito a coleccionar tropeções que podem fazer da sua progressão política um exercício de alpinismo profundamente arrastado e penoso. De nada adianta culpar a imprensa. Abel Chivukuvuku tem a obrigação de saber que sempre que ele se entregar a exercícios de pirotecnia política como aquele em que incorreu quando foi contar a Kwata Kanawa, seu adversário político, a novidade da sua candidatura à liderança da Unita, estará sempre sujeito a atear um incêndio nos seus próprios aposentos. E, claro, a sair chamuscado. Por conseguinte, cabe-lhe cuidar melhor dos passos que dá, pois os jornalistas estarão lá para cumprir com o seu papel.


Fonte: Semanário Angolense

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