O Arauto

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segunda-feira, julho 03, 2006

Carta aberta ao menino do Huambo

Um amigo angolano, nascido exactamente há 30 anos, escreve-me com regularidade e, na sua última mensagem, estranha o facto de há uns dias esta coluna não ter sido actualizada. Diz-me este menino do Huambo: «Os que nos querem acéfalos hão-de reconhecer um dia a importância do teu trabalho e saberão que nem todos atiram a carta destinada ao general Garcia na primeira valeta que encontram. Portanto, meu irmão, continua que estamos a ver o teu trabalho, o contributo, a tua luta por uma Angola (e por Portugal também) melhor.»
Que melhor alento poderá ter alguém que rema contra a maré?
Quando vejo jovens angolanos, nascidos e crescidos no meio da guerra, a lutar pela sua Pátria, a chamar as coisas pelos seus nomes e a enfrentar de peito aberto os maus ventos e as péssimas marés, fico com a certeza de que Angola tem futuro, mau grado estar sem presente.
Por outro lado, quando vejo os jovens portugueses, nascidos e crescidos na democracia e na paz, a abdicar da sua Pátria, a temer chamar as coisas pelos seus nomes e a meter o rabinho entre as pernas quando sopra uma brisa ou quando os ondas estão mais altas, fico com a certeza de que Portugal não tem futuro, mau grado ter (ainda) algum presente.
Quando vejo jovens angolanos, nascidos e crescidos no meio da destruição, da fome e da miséria, acreditar que é possível lutar pelos milhões que, como eles, têm pouco ou nada, e não pelos poucos que têm milhões, fico com a certeza de que Angola tem futuro.
Por outro lado, quando vejo os jovens portugueses, nascidos e crescidos no meio da opulência, a defender que vale tudo para conseguir um tacho, mesmo deixar a coluna vertebral em casa, fico com a certeza de que Portugal está entregue à bicharada.
Quando vejo jovens angolanos, nascidos e crescidos sabe Deus como, a lutar pela Liberdade, pelo direito à diferença e pela democracia, fico com a certeza de que Angola terá um futuro digno.
Por outro lado, quando vejo os jovens portugueses, nascidos e crescidos no meio da informação e da escolaridade, a claudicar perante os donos da verdade, a aceitar serenamente as ordens de um qualquer capataz que é director de qualquer coisa, fico com a certeza de que Portugal está cada vez mais próximo de ser um conjunto de pessoas comandado por autómatos.
Obrigado Jorge, menino do Huambo.
Crónica de Orlando Castro publicada aqui o ano passado

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