O Arauto

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sábado, junho 24, 2006

*O tango do maestro José Eduardo dos Santos

Os cidadãos angolanos atentos ao evoluir do cenário politico local estão já, com toda certeza, tontos com essas voltas que da o processo eleitoral.E olhem, caros leitores, que são grandes voltas mesmo, daquelas que prescrevem um ângulo de 360 graus em que numa semana se anuncia um avanço para, na semana seguinte, retornarmos ao ponto de partida, a estaca zero.E é aqui onde, na verdade, nos encontramos, no ponto de partida.
Há anos que são avançados horizontes temporais para que tenhamos, finalmente, as segundas eleições presidências e legislativas em Angola. O próprio presidente da República, que tem a incumbência de convocar as eleições, já não veio a publico por varias vezes para apresentar datas prováveis.
A verdade é que os cenários, os horizontes temporais, as datas prováveis foram todas ultrapassadas. Hoje, os cidadãos estão assim, sem saber quando terão de facto eleições, a espera que o Chefe de Estado, ou outro governante por si mandatado, os induza mais uma data virtual.Vive-se de facto uma era de cenários virtuais, o que soa, no fundo, como um gigantesco contraste ao lembrarmos de que por ocasião de 1992, quando havia verdadeira pressão política interna e externa, os angolanos conseguiram preparar e realizar as eleições em tempo recorde.
Falamos, é claro, de uma altura em que haviam muitos mais problemas que hoje: menos dinheiro, mais minas terrestres e, com certeza, menos estabilidade politica e militar.
No entanto, bastaram seis meses para que o processo fosse, enfim, concluído. Com alguns erros, é claro. Mas as eleições foram mesmo realizadas e os resultados estão ai, a historia, essa, testemunha.Fica assim difícil compreender que raio de mania de perfeccionista é essa que faz com que as eleições estejam a levar tanto tempo para serem preparadas. Mais tempo ainda do que seria necessário para polir um diamante bruto de seis milhões de quilates.
Desde 2000 que os cidadãos ouvem falar da vontade governamental de realizar eleições. Todavia, ao mesmo tempo em que essa intenção foi sendo manifestada foram apresentadas em paralelo toda a espécie de desculpas.
Dos textos mais credíveis aos mais esfarrapados, os angolanos foram se convencendo de que o seu governo, chefiando por quem é chefiado, se assume cada vez mais como um mentiroso compulsivo. Desenha cenários, cria expectativas junto da população mas, no fim, não consegue cumprir os prazos que ele próprio definiu. O pior é que não sabemos, enquanto potências eleitorais, se culpamos esse mesmo governo por incompetência ou se nos apegamos aos indícios da existência de uma implícita vontade de se ir adiando as coisas ao sabor da conveniência de um ser supremo deveras conhecido.
O próprio Presidente da República obriga-nos, assim, a dançar um verdadeiro tango de adiamentos: os cidadãos dão um passo em frente para, em seguida, recuarem dois passos sem que, pelo menos um único dia, o maestro José Eduardo dos Santos venha a público explicar as razões das falhas de coreografia ou, no que é pior, dessa musica desafinada ao som da qual somos todos obrigados a dançar. Que se avance já para o registo eleitoral, que se convoquem já as eleições. Já é pois hora de se deixar de enganar esse sofrido povo que, com certeza, merece mais respeito.

* Artigo da autoria do Jornalista Tandala Francisco, director do semanário angolano "A Capital".