O Arauto

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quarta-feira, julho 05, 2006

Uma ilha não faz o arquipélago?

Dois peritos da Comissão Económica das Nações Unidas para África estão a caminho da cidade da Praia para reuniões com o Governo de Cabo Verde e, ainda, para escolher o parceiro que no país irá realizar, ainda este ano, um estudo sobre «Boa Governação» que abrange 39 países africanos. Pela Manchete e pelos artigos de Eugénio Costa Almeida e Jorge Eurico, todos aqui no NL, parece que nem tudo vai bem ou, talvez, que há muitas coisas que começam a voltar ao antigamente.
Embora me pareça que as instituições de Cabo Verde (ainda) merecem o benefício da dúvida, teria gostado de ver o Supremo Tribunal de Justiça a ser mais célere, ou apenas célere, em chamar o presidente do PAICV e chefe do Governo, José Maria Neves, à responsabilidade para provar, como referiu o NL no dia 18 do mês passado, a afirmação por si proferida, dia 22 de Fevereiro do ano em curso, aquando das últimas eleições legislativa realizadas no arquipélago, segundo as quais o MpD, PSD e a UCID, no interior de Santiago, tinham comprado votos com o dinheiro proveniente do crime organizado e do tráfico de droga.
De facto e de jure, o primeiro-ministro cabo-verdiano parece dar razão ao (mau) principio do "quero, posso e mando", parecendo (pelo menos isso) que o Supremo Tribunal está sujeito às orientações do PAICV à semelhança do tempo do partido único.
Dir-me-ão, com toda a legitimidade, que uma ilha não fez um arquipélago. É verdade. Mas a inércia do Tribunal em relação a este episódio parece ser (mais uma) prova provada de que Cabo-Verde ainda está longe de atingir os padrões normais dos países de desenvolvimento médio e que, a meu ver bem, quer pôr um dos pés na União Europeia.
Por outras plavras, não basta ser sério, é preciso (também) parecê-lo. E, convenhamos, aos olhos do Mundo (que, é verdade, só vê o que lhe interessa) o presidente do PAICV parecer estar impune e, quando isso acontece, o próximo passo é o descrédito total.
Realmente cito o artigo de Eugénio Costa Almeida, não basta gozar de um prestígio, que o merece legitimamente. Há necessidade de o manter e cultivar. «Porque, como há tempos escrevia, um país que gerou “personalidades tão nobres e importantes como Cesária Évora, Germano de Almeida, Jorge Tolentino, Manuel Lopes ou o jornalista e poeta Eugénio Tavares” não pode, nem deve, “continuar a ver disputas inúteis e estéreis entre “tambarinos” e “ventoinhas” e, que por causa delas, pessoas de rua sejam prejudicadas só por que uma tenha e outra não o cartão do partido A ou do partido B”, diz Eugénio Costa Almeida. E tem razão. Mas se essa história do cartão partidário não é só um mal de Cabo Verde. Se isso é um paradigma do Terceiro Mundo, então Portugal – por exemplo – não caminha para lá... já lá está.

Crónica do Jornalista Orlando Castro, publicada no Notícias Lusófonas